A ideia mais deformada que se pode ter da teologia cristã talvez seja aquela que vê Deus como déspota inflexível, cujas ações são baseadas na vontade arbitrária, no “porque sim” e “porque não”. O autor em questão, Leibniz, embora fosse luterano, não se encontra tão distante dos escolásticos, que provavelmente reconheceriam certa afinidade em suas ideias, caso tivessem tido a oportunidade de lê-lo.
A base metafísica de Leibniz não está só baseada na onipotência divina, mas principalmente na ligação estrita que Deus possui com a lógica. Isto implica, certamente, que apesar de Deus poder fazer tudo o que lhe apraz, suas decisões não são baseadas nesse próprio poder, mas em um método ou ordem geral. Esta ordem geral submete mesmo as “máximas subalternas” (termo que Leibniz usa para denominar a intelecção que o homem possui sobre as coisas). A consequência é evidente: mesmo milagres e eventos sobrenaturais não escapam dessa ordem geral [1], embora aparentemente contrariem a natureza das coisas. Sabe-se, por exemplo, que devido a densidade do corpo humano e pressão aplicada sobre uma área muito pequena, um ser humano que tentasse andar sobre as águas não lograria sucesso. Esta é a natureza mecânica das coisas. No entanto, sabemos ainda que Deus realizou tal ação [2]. Em Leibniz, essa aparente contradição é metafisicamente explicada pela onipotência divina (Deus operou o milagre porque é onipotente), mas justificada pela ordem geral (Deus realizou o milagre porque ele está em conformidade com a ordem geral), que o homem, em sua infinitude, não é capaz de compreender.
Leibniz vai além e, indo contra Descartes, afirma que Deus não faz nada fora dessa ordem [3]. Isto implica que a razão de Deus precede sua vontade. Se não fosse assim, argumenta o filósofo, como avaliaria Deus sua criação como boa? [4] Se toda comparação envolve duas entidades e a cosmogonia é ex nihilo, como poderia Deus classificar sua criação como boa? Assim sendo, Deus observa a criação e avalia a partir daquela ordem geral supracitada. Sendo essa ordem geral a mais superior dentre todas as ordens e sendo Deus sobremodo bondoso, Deus sempre realiza suas ações com máxima perfeição [5]. Em outro momento, Leibniz compara a abstração humana de eventos naturais em fórmulas e métodos com a abstração dessa ordem universal [6].
Essa subordinação da ordem particular humana sob a ordem geral de Deus não implica em uma relativização da verdade. O melhor exemplo que podemos trazer é o da relatividade de velocidade (que deveria ser relatividade da percepção de velocidade). Os físicos, não se importando com esse conceito de verdade tanto quanto filósofos e matemáticos, acabaram por causar confusões na definição. Imagine o carro em movimento. Os passageiros estão parados entre si. E dentro do universo de percepção deles, é verdade que 'os passageiros estão parados'. Logo, se p é 'os passageiros estão parados', p é verdadeira em relação a U’ (carro), mas falsa em relação a U’’ (ambiente externo). Foi precisamente isso que Tarski definiu, mas a nível matemático.
Contudo, é trivial pensar que deve existir um universo U maior que todos os universos perceptíveis para impedir a recursão de universos 'existíveis' e é essa a Realidade, onde se encontra a ordem geral a qual Leibniz se refere, a qual não é plenamente compreensível pelo homem e nem por qualquer outra criatura criada [7].
Se, por outro lado, rejeitarmos a existência de uma ordem geral superior, estaremos não só renunciando a uma explicação profunda dos fenômenos, mas também subjugando toda a experiência humana a uma mera casualidade desprovida de propósito. Essa visão reducionista, típica do materialismo, insiste em explicar cada acontecimento exclusivamente por meio de causas eficientes, ignorando a possibilidade de uma causa final – um fim que transcende a mera interação de partículas ou a geometria dos corpos. Nesse caso, seríamos forçados a dizer, por exemplo, que as leis mecânicas dependem exclusivamente da geometria dos objetos [8], pois, não sendo possível chegar a uma verdadeira causa final, só nos resta considerar como finais as causas eficientes. Seremos daí forçados a dizer também, como dizem os materialistas, que o homem vê porque possui olhos e então ignorar que ele possui olhos para ver. A ciência, ao desvelar as leis que regem os fenômenos, revela apenas a ordem parcial perceptível aos nossos sentidos; por sua vez, a filosofia e a teologia convidam-nos a transcender essa limitação, direcionando o olhar para a razão divina que ordena o cosmos.
Ao considerarmos que a razão de Deus precede sua vontade, como propõe Leibniz, encontramos um caminho para conciliar a aparente discrepância entre o natural e o sobrenatural. Deus, ao ordenar o universo segundo uma lógica superior, não atua de forma arbitrária; antes, Ele opera em conformidade com um sistema que, embora incompreensível em sua totalidade para a mente humana, é intrinsecamente bom e racional. Essa ordem universal permite que milagres, eventos que à primeira vista poderiam parecer violar as leis naturais, sejam vistos como manifestações de uma perfeição maior, integradas harmonicamente no tecido da realidade.


